Chuck Norris, o herói que derrotou tudo enfrenta sua última batalha por amor

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Ídolo de várias gerações e resgatado com ironia pela geração do milênio, o mítico ator de ação e ativista conservador reaparece para encarar, desta vez, um inimigo muito mais duro

Ao longo de sua carreira, Chuck Norris enfrentou os soviéticos, os vietcongues, a máfia, os nazistas, a corrupção policial, assassinos em série, mercenários, terroristas de diferentes nacionalidades e todos os criminosos que se atreveram a pisar no Texas. Mas desde 2013 tem apenas um inimigo: o gadolínio.

Esse elemento químico, comum nos materiais de contraste usados nas ressonâncias magnéticas, é, segundo Norris, o responsável pela doença de sua mulher, a atriz e modelo Gena O’Kelley (Califórnia, 1963), com quem tem dois filhos − o ator tem outros três de seu primeiro casamento, com Dianne Holecheck (Califórnia, 1941). Para cuidar dela e combater os responsáveis pelo que ele considera uma negligência médica, anunciou há dois anos o fim de uma carreira cinematográfica que começou há mais de quatro décadas. “Abandonei minha carreira cinematográfica para dedicar minha vida inteira a manter Gena viva. Isso é o mais importante, que ela continue conosco e que aquilo que aconteceu com ela não seja sofrido por mais ninguém”, disse o ator, que se aproxima dos 80 anos (nasceu em março de 1940 em Oklahoma) e é um elemento imprescindível da cultura pop das últimas décadas.

O astro de Hollywood Steve McQueen teve duas grandes ideias em sua vida. A primeira, cancelar de última hora seu jantar na casa de Sharon Tate em 9 de agosto de 1969. Isso o livrou da morte na mão dos fanáticos que seguiam Charles Manson. A segunda, recomendar ao seu professor de artes marciais um tal de Chuck Norris, que se dedicasse à interpretação.

Porque aquele ruivo carrancudo que ensinava os rudimentos do taekwondo a estrelas de Hollywood como McQueen, Michael Landon e Priscilla Presley não estava destinado a ver seu nome nas páginas douradas da Academia das Artes e Ciências de Hollywood, mas sim a conquistar o coração dos fãs do cinema de ação. Graças a um punhado de personagens memoráveis − J.J. McQuade (do filme McQuade, o Lobo Solitário, 1983), coronel James Braddock (de Braddock: O Super Comando, 1984), Matt Hunter (de Invasão U.S.A., 1985) e, principalmente, o imbatível ranger texano Cordell Walker (da série Chuck Norris: O Homem da Lei, 1993-2001) −, seu nome ficou gravado a fogo nos cabeçotes de milhares de fitas VHS.

Perto de completar oito décadas, Chuck teve muitas vidas. Na primeira, recebeu o nome de Carlos Ray Norris e foi um chefe de família dedicado que cuidou de sua mãe e de seus irmãos até se alistar na Força Aérea. Porque Norris não é um patriota apenas no Instagram, ele sabe o que é defender seu país como policial militar na Coreia, o lugar onde descobriu a arte que mudaria sua vida, o tangsudo, uma versão coreana do taekwondo. Voltou de lá com o apelido de Chuck e um futuro como instrutor de artes marciais.

Mas como Chuck não é um daqueles que se limitam a seguir um caminho, e sim dos que constroem uma nova estrada, uniu seus conhecimentos de taekwondo, jiu-jitsu brasileiro, luta livre, muay tai e shotokan, e o resultado foi uma mistura mais letal que o chá Long Island: o chun kuk do, uma arte marcial made in Norris que não foi sua única invenção. Cansado das costuras que se rasgavam no primeiro chute voador − quem nunca teve esse problema? −, criou umas calças, as Chuck Norris Action Pants, que, vistas hoje, parecem um simples jeans elástico sem muito estilo, mas quem se atreveria a discutir moda com o homem que ensinou a Pai Mei os cinco pontos de pressão para fazer um coração explodir.

Um de seus papéis mais celebrados, em ‘McQuade, o Lobo Solitário’ (1983).
Um de seus papéis mais celebrados, em ‘McQuade, o Lobo Solitário’ (1983).

Chuck tinha corpo para a arte (marcial), mas não cabeça para os negócios: a rede de academias que ele havia fundado em Los Angeles estava à beira da falência quando um de seus alunos, Steve McQueen, o homem mais cool da Hollywood dos anos 1970, disse-lhe a frase que mudaria seu destino: “Se você não puder fazer mais nada na vida, sempre resta a atuação”. Teria sido um bom lema para o Instituto de Cinema e Teatro Lee Strasberg.

Quem lhe deu o segundo empurrão foi outro luminar da época. Em 1972, o mítico Bruce Lee lhe ofereceu o papel de antagonista em O Voo do Dragão. Ambos se enfrentariam em uma luta de mais de dez minutos no Coliseu de Roma. “E quem vai ganhar?”, perguntou Chuck, embora soubesse perfeitamente qual era a resposta. Bruce Lee era diretor, roteirista, protagonista e o grande astro do cinema de artes marciais. A luta ainda está no altar dos fãs do gênero. Pela primeira e última vez, Chuck seria o vilão, e pela primeira e última vez, comeria poeira. Ele não se importou com isso, estava ciente da aura daquele rival que também era um de seus melhores amigos. Poucos meses depois, ele e Steve McQueen seriam os encarregados de carregar o caixão de Bruce Lee em uma igreja de Seattle.

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