Como foi o início do grupo Scuderie Le Cocq, há 55 anos que originou as milícias no RJ

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Achaque a bicheiros vitimou detetive que foi ‘vingado’ pelos policiais

Pedro Januário e Clotilde Alves da Costa moravam num casebre no Saco de Fora, onde hoje fica a Armação de Búzios, na Região dos Lagos. A violência da cidade grande era algo distante para eles até que, na madrugada de 3 de outubro de 1964, há 55 anos, homens armados invadiram a residência e assassinaram com 62 tiros um hóspede que a filha tinha trazido para casa junto com uma amiga.

Pedro e Clotilde não sabiam, mas o cidadão que eles abrigaram era o suspeito Manoel Moreira, conhecido como Cara de Cavalo. Cinco semanas antes, ele se tornara o criminoso mais procurado do Rio, após matar o detetive Milton Le Cocq num tiroteio em Vila Isabel, na Zona Norte. Jurado de morte, Moreira foi executado por policiais que  fundaram a Scuderie Detetive Le Cocq, grupo de extermínio que, na visão de pesquisadores, está na origem das milícias que hoje controlam vários territórios cariocas.

Até a morte do detetive, Cara de Cavalo vivia de extorquir apontadores do jogo do bicho. Armado com uma Colt 45, o homem de 23 anos percorria a região de Vila Isabel de táxi para coletar o dinheiro. Entretanto, um bicheiro o denunciou para Milton de Oliveira Le Cocq, que decidiu armar uma tocaia.

Acompanhado pelos policiais Hermenegildo dos Santos, Aníbal Beckman dos Santos e o delegado Hélio Vigio, o detetive tentaria prender Cara de Cavalo. Na noite de 27 de agosto de 1964, eles identificaram a mulher que o ladrão usava para recolher o pagamento e a seguiram até o Largo do Maracanã, onde encontraram o suspeito.

Ao perceber a ação, ele tentou fugir, mas seu táxi foi fechado na Rua Teodoro da Silva pelo fusca dos policiais. Houve troca de tiros, e Le Cocq foi atingido no tórax e no pescoço por cinco disparos. O detetive de 44 anos foi socorrido, mas não resistiu. 

Cara de Cavalo

No dia seguinte à morte de Le Cocq, O GLOBO noticiou a revolta de policiais: “Não foram poucos os que, junto ao cadáver, juraram matar o assassino”. Foragido, Cara de Caval chegou, na noite de 2 de outubro, ao casebre de Saco de Fora, região que na época integrava o município de Cabo Frio. Ele foi levado até lá pela namorada, Nilza Ribeiro, que era amiga de Vanilda Alves, filha de Pedro Januário e Clotilde Alves, os donos da casa. Nilza disse à polícia que o grupo de extermínio invadiu o imóvel por volta das 4h30 do dia 3 de outubro. Dos cerca de cem disparos feitos, 62 atingiram Cara de Cavalo, a maioria na região do abdôme. De início, a polícia afirmava que não tinha informações sobre os assassinos. Só mais tarde ficou claro que aquele havia sido o primeiro crime da Scuderie Le Cocq, organização que chegou a ter 7 mil associados e só foi extinta no início dos anos 2000.

Policiais ao lado do corpo de Cara de Cavalo, assassinado por um grupo de extermínio | Foto de arquivo/Agência O GLOBO

Escritor e colunista do GLOBO, o jornalista Zuenir Ventura chama de “ovo de serpente” a época entre a ditadura do Estado Novo e a ditadura militar em que grupos de extermínio como a Scuderie Le Cocq se consolidaram. No livro “Cidade partida” (Cia das Letras), de 1994, o autor descreve os conflitos e tensões sociais daquele período até chegar à chacina de Vigário Geral, em agosto de 1993. Naquela ocasião, 21 pessoas foram executadas por policiais que queriam vingar depois que quatro PMs foram mortos por traficantes na favela. Para Ventura, os grupos de extermínio do passado foram embriões dos grupos paramilitares que hoje disputam o controle de favelas do Rio com os traficantes que prometiam “combater”.

Leia a reportagem completa no jornal O Globo

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