Como identificar o abuso sexual no ginecologista?

Read Time6 Minutes, 42 Seconds

O objetivo, aqui, não é gerar medo. Pelo contrário, é conscientizar você e todas as mulheres do que deve ou não acontecer dentro do consultório

Você já deve ter visto por aí casos de mulheres que sofreram abuso sexual durante uma consulta no ginecologista. Infelizmente, é mais comum do que gostaríamos de admitir, mas isso não significa que é impossível identificar e evitar que esse tipo de coisa aconteça.

Se você nunca foi ao ginecologista antes, se esteve no consultório poucas vezes ou se vai com frequência ao especialista, vale a pena ficar de olho. O objetivo, aqui, não é gerar medo. Pelo contrário, é conscientizar você e todas as mulheres do que deve ou não acontecer dentro do consultório. Vamos, primeiro, passar pelo básico:

O que acontece no consultório do ginecologista?

A meta de uma consulta ginecológica é a paciente checar a sua saúde. Ou seja, garantir que o seu aparelho reprodutor está funcionando corretamente, que as menstruações estão de acordo com o que é comum, que não existem nódulos nos seios ou, se existem, que eles sejam devidamente examinados.

Por isso, não existe um protocolo fixo de quais exames devem ser feitos durante a consulta ginecológica. Segundo a Dra. Fernanda Pepicelli, ginecologista da Clínica MedPrimus de São Paulo, essas examinações dependem da idade da mulher e do seu histórico médico. “Basicamente, é importante uma mulher realizar o papanicolau e a coleta de exame que busque o HPV após começar a ter relações sexuais e se não tem nenhum problema de saúde”, diz.

Além disso, para ela, fazer um ultrassom pélvico é essencial, já que serve tanto para avaliar os órgãos internos da mulher (como o útero e os ovários), como para identificar doenças, acompanhar a gravidez ou o processo de ovulação no caso de mulheres que estão fazendo tratamentos de reprodução assistida.

Outros exames, como a mamografia, passam a ser fundamentais a partir dos 40 anos, para a detecção precoce de câncer de mama. Já exames de sangue ajudam no acompanhamento da rotina, determinando os níveis de açúcar no sangue, hormônios e colesterol.

Agora, um ponto importante. Muitos desses exames são, sim, desconfortáveis. “O papanicolau, por exemplo, é um exame que passamos um aparelhinho na vagina, chamado espéculo. Uma vez visualizando o colo do útero, podemos coletar material de lá para ser feita uma análise”, explica Fernanda. Por isso, esses exames devem seguir a orientação médica e a paciente precisa se manter calma e relaxada, para facilitar o processo.

Se feito da maneira adequada, esses exames, mesmo os mais desconfortáveis, são feitos rapidamente (um ultrassom pode levar de 30 minutos a uma hora), e você não precisa ficar completamente nua durante a consulta ou a examinação. Fernanda explica que a mulher pode ficar com o avental para dar menos desconforto. “Mas sem calcinha e sem sutiã. O exame físico é parte fundamental da consulta e não tem como ser feito adequadamente se a paciente estiver vestida”.

Quando a consulta do ginecologista vira assédio sexual?

Agora, vamos entender como uma consulta deixa de ser uma consulta para se tornar assédio sexual. Para isso, conversamos com Isabela Del Monde, da Rede Feminista de Juristas, para entender melhor o assunto, um passo de cada vez.

1.Entenda o que é abuso sexual

“Abuso sexual é um termo leigo para falarmos de situações de violência sexual, e, basicamente, o que define qualquer situação dessas é a vontade de uma das partes de praticar atos lascivos com outra pessoa independentemente da vontade ou do consentimento da outra”, explica Isabela.

Isso significa que a violência sexual é caracterizada quando um dos lados de uma relação (seja ela romântica, profissional ou médica) pratica atos libidinosos, relativos ao sexo, sem o consentimento da outra pessoa.

2.Preste atenção na hora da consulta ginecológica

De acordo com Isabela, um ato de violência sexual e até de estupro pode acontecer durante um exame ou em momentos de entrevista entre médico e paciente, com perguntas extremamente íntimas para além da necessidade médica.

“É comum que se pergunte numa consulta ginecológica o número de parceiros sexuais que uma mulher teve no último ano. Mas não é comum, por exemplo, uma pergunta como quais são as preferências dela na cama”, diz. “Isso não tem nenhuma interferência na saúde dela”.

Para a advogada, o que precisa ficar mais consciente é que as mulheres sabem quando estão passando por uma situação de violência, seja ela sexual, psicológica, física ou moral. “Se a paciente sente que tem alguma coisa estranha, que não ficou confortável, muito provavelmente ela está diante de uma situação de abuso sexual”.

3. Vá acompanhada na primeira consulta

Se você está indo pela primeira vez ao médico ginecologista, a recomendação de Isabela é que você vá acompanhada de alguém de confiança e, inclusive, exija a presença de uma enfermeira mulher na sala de exames, além de fazer uma pesquisa na internet antes de ir ao consultório, para se familiarizar com o que acontece em uma consulta desse tipo.

“De modo que ela vá empoderada de informações sobre o que pode esperar e o que não pode esperar dentro de um consultório ginecológico”, diz Isabela. “Eu também recomendo que as mulheres solicitem aos seus médicos que expliquem o que vão fazer e porquê vão fazer”. Isso ajuda você não só a entender o passo a passo da consulta, como também adotar uma postura ativa nessa situação, e não meramente passiva, de observador.

4. Saiba onde recorrer em caso de violência sexual

O principal é seguir o caminho comum para esse tipo de caso: ir até uma delegacia para fazer um boletim de ocorrência, buscar auxílio legal (como o de um advogado) e abrir uma ação contra o médico. “Além disso, ela pode também fazer uma denúncia no Conselho Regional de Medicina. Isso é muito importante, porque a partir disso será instaurado um processo administrativo e o médico terá que responder perante o seu conselho profissional, podendo encarar uma série de sanções que podem gerar a cassação do seu CRM [registro médico]”.

Vale lembrar sempre que o Disque Denúncia 180 funciona sempre 24 horas por dia, sete dias por semana, e recebe denúncias para casos de violência sexual, psicológica e física contra mulheres.

“Acredito que a melhor forma de lidar com o trauma de uma violência como essa é a vítima ter plena consciência que ela não tem nenhuma culpa ou responsabilidade sobre o fato. Que não tem nada que ela fez ou deixou de fazer que causou aquela situação. Isso é muito fundamental. E, para isso, nós precisamos ter uma cultura de empoderamento de mulheres e de credibilidade de mulheres”, diz, Isabela.

Para isso, a escuta e o reconhecimento pela sociedade ou pelo círculo social da mulher do seu relato de violência é essencial também para que o trauma não se estabeleça e ela consiga, mais facilmente, superar a situação como um todo e seguir em frente.

“Você pode buscar uma rede de confiança para falar sobre o que aconteceu, buscar saber sobre os seus direitos para que você entenda que outras pessoas passaram por isso e que há soluções jurídicas e, por fim, numa próxima visita ginecológica, buscar indicações de médicas, preferencialmente mulheres, que atendem suas amigas ou pesquise na internet médicos que revelem na sua profissão a preocupação quanto a isso”, finaliza.

Do Yahoo Vida e Estilo

1 0
0 %
Happy
0 %
Sad
0 %
Excited
0 %
Angry
0 %
Surprise
Close