Delegados da PF são acusados de manipular escuta telefônica em investigação sobre ataque a aldeia indígena

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As alterações incluem a ocultação de um diálogo amistoso entre o delegado da PF Denis Colares de Araújo e o fazendeiro Dionei Guedin

O Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul denunciou à Justiça três delegados e um agente da PF (Polícia Federal) em Dourados sob a acusação de manipular escutas telefônicas gravadas com autorização judicial. As alterações incluem a ocultação de um diálogo amistoso entre o delegado da PF Denis Colares de Araújo e o fazendeiro Dionei Guedin, que estava com a prisão decretada por suposto envolvimento em um homicídio.

No diálogo, gravado às 8h44 do dia 22 de agosto de 2016 e recuperado pela Procuradoria, o fazendeiro, foragido desde o início de julho, diz, entre risadas: “Doutor do céu, arrumou a cama pra mim já ou não?”. “Não, rapaz”, diz o delegado.

Em seguida, o delegado afirma que o pedido de prisão partiu do MPF (Ministério Público Federal) e que a relação da Procuradoria com a PF “fodeu de vez”. Ele orienta o fazendeiro a “bater no MPF” via imprensa para escapar da cadeia. O foragido então pergunta se podem falar pessoalmente. “Pooooode, pode me procurar aqui”, responde o policial federal.

Guedin é um dos cinco fazendeiros acusados de estar por trás de um ataque contra uma comunidade indígena da etnia guarani-caiová dentro da fazenda Yvu, localizada em área em litígio em Caarapó (MS).

A ação envolveu dezenas de pessoas, algumas delas armadas, cerca de 40 camionetes e até uma pá carregadeira. Dos cerca de 45 indígenas no local, um morreu com dois tiros e nove foram baleados, incluindo uma criança de 12 anos.
Depois de dois períodos presos, os fazendeiros foram soltos pela última vez em novembro de 2017 e aguardam o julgamento em liberdade.

Foto: Divulgação EBC

Em setembro do ano passado, o STF (Supremo Tribunal Federal) suspendeu um pedido de reintegração de posse contra os indígenas, aceitando o argumento do MPF de risco de convulsão social. O teor da conversa foi tornado público no mês passado. Está incluído no recurso do MPF ao TRF (Tribunal Regional Federal) da 3a Região depois que a Justiça Federal em Dourados não aceitou a denúncia.

Para os procuradores, “os denunciados valeram-se da estrutura policial para ocultar a prática de crimes por um de seus servidores”. As acusações são de inserção de dados falsos, falsidade ideológica e prevaricação.
Em primeira instância, o processo correu em segredo de Justiça. Segundo nota do MPF, a sentença considerou que “não há justa causa e os fatos não são típicos de uma ação penal”.

A reportagem contatou a PF para ouvir a versão da defesa dos acusados. A instituição indicou o superintendente em Mato Grosso do Sul, Cleo Mazzotti, para falar. Ele disse que “não foram encontrados indícios de crime ou prática de ato de transgressão disciplinar por parte dos policiais” em inquérito e em procedimento administrativo internos. Essa conclusão, afirmou ele, foi corroborada pela decisão em primeira instância da Justiça Federal.

Sobre o teor da conversa, Mazzotti afirmou: “Infelizmente, talvez o delegado acabou falando algumas palavras que não poderia, mas o fato é que essa conversa telefônica, pelo que foi comprovado nas investigações e na sindicância, não redundou em que o indivíduo permanecesse foragido. Esse é o ponto da questão”.

ADULTERAÇÕES

Durante a conversa recuperada, Guedin indica suspeitar que seu telefone está grampeado e informa outro número de telefone ao delegado Colares.

A ligação entre os dois é então encerrada, segundo relato do MPF na denúncia, feito a partir de registros das ligações obtidos via perícia e depoimentos de policiais.

Em seguida, Colares vai até o alojamento, acorda o agente Álvaro dos Santos Neto e afirma: “Tô fodido, fodido, falei com um fazendeiro”.

A pedido do delegado, ele revisa as gravações e encontra a conversa com o foragido no sistema Guardião, o aparelho de escuta telefônica usado pela PF.

Após essa confirmação, Colares liga quatro vezes do seu celular para o número de celular fornecido pelo fazendeiro foragido. Poucas horas mais tarde, às 13h42, o alvo se apresenta à PF e é preso -48 dias após a expedição do mandado.

Três dias depois, em 25 de agosto de 2016, cinco delegados, incluindo Colares, se reuniram na PF de Dourados para decidir sobre o assunto. Desses, quatro se opõem ao envio da conversa ao MPF e à Justiça, incluindo o chefe da delegacia, Nivaldo Lopes da Silva, um dos denunciados.

Sempre segundo a denúncia, em 8 de setembro, o delegado Fernando Araújo Campos envia o resultado das interceptações (chamado de Registro Especial) para o MPF e a Justiça sem qualquer menção à conversa amistosa entre o fazendeiro foragido e o policial federal.

De acordo com o MPF, o agente Santos Neto manipulou ao todo sete dados do Sistema Guardião para favorecer Colares. No único trecho enviado, o fazendeiro só aparece dando a entender que se entregaria: “Eu vou depois do almoço”.

O delegado Campos e o agente Santos Neto também estão entre os quatro policiais federais denunciados, junto com os delegados Araújo e Silva.

CRONOLOGIA

12.mai.2016 – Despacho da Funai publica resultados de delimitação da Terra Indígena Amambaipegua 1, de 56 mil hectares, em Caarapó (273 km ao sul de Campo Grande). Publicação dá início à regularização fundiária

Jun.2016 – Índios guarani-caiovás tomam a fazenda Yvu, uma das 87 propriedades dentro da área delimitada. No dia 14, fazendeiros atacam acampamento, e o indígena Clodioude Aquileu Rodrigues de Souza é morto com dois tiros. Outros nove são baleados. Três PMs que foram ao local após o ataque são mantidos reféns por algumas horas.

Folhapress

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