O afogamento da modelo Caroline Bittencourt é um triste acidente que pode servir de alerta para os navegantes evitarem riscos desnecessários e mais mortes no mar

Era um domingo ensolarado. O céu estava limpo, um dia com as condições aparentemente perfeitas para quem deseja fazer um passeio de barco. A modelo Caroline Bittencourt, de 37 anos, estava com o seu marido, o empresário Jorge Sestini, curtindo a paisagem do litoral norte de São Paulo. Por volta das 15h pegou o celular e postou em uma rede social um vídeo das belas águas azuis esverdeadas de Ilhabela. Mal sabia ela que seria uma das suas últimas publicações. O destino do casal foi mudado para sempre quando eles resolveram fazer um passeio com sua lancha catamarã de 14 pés até a Praia do Pontal da Cruz, em São Sebastião.

A embarcação deixou Ilhabela às 16h40 do domingo e atravessava o canal quando foi surpreendida por uma forte tempestade. Eram 17h12 quando a modelo acessou um aplicativo de mensagens pela última vez. Em meio à chuva e à ventania, Caroline, que levava seus dois cachorrinhos no passeio, caiu na água e não conseguiu retornar ao barco. Jorge pulou no mar para tentar resgatá-la, mas quando a viu pela última vez, ela estava sendo engolida pelas águas. Ele ficou cinco horas à deriva procurando-a, quando foi encontrado por um marinheiro que ouviu o seu grito de socorro e avistou sua mão abanando em meio à imensidão azul. Muito cansado e em estado de choque, Jorge só conseguia pensar em encontrar a mulher. Diante do fracasso nas buscas, retornaram para o Iate Clube. Apenas no dia seguinte, o corpo da modelo foi encontrado pelos bombeiros, na Praia das Cigarras, em São Sebastião.

Caroline acabava de comemorar três meses de casada. Com uma beleza estonteante, estava no auge da vida, curtindo a filha Isabelle, de 17 anos, de um casamento anterior, o relacionamento com o marido, realizando campanhas publicitárias e comemorando o término da faculdade de Nutrição. O precoce fim de sua história, assim como de muitas vítimas de acidentes náuticos, poderia ter sido evitado se o casal tivesse mais informações sobre o clima antes de entrar no mar e se estivessem usando coletes salva-vidas. Naquele dia, apesar do céu claro, a previsão do tempo já apontava que uma tempestade atingiria a região.

Sinal de alerta

“No domingo de manhã, uma hóspede nossa ia sair de barco, mas a marina a alertou que teria uma rajada de vento e ela não saiu”, diz Irnando Colacioppo, dono da pousada Irmãos do Mar, que fica na praia Itaguaçu, em Ilhabela, bem em frente ao canal. “O dia estava maravilhoso, o vento chegou do nada”, diz ele. Para se ter ideia do tamanho da intempérie, os ventos ultrapassaram 120km/h, velocidade que já classifica o fenômeno como furacão grau 1. O cenário era de destruição. Mais de dez barcos foram jogados contra a ilha. A balsa que atravessa o canal entre Ilhabela e São Sebastião ficou paralisada por mais de três horas. No final do dia, outras seis pessoas, incluindo uma família com um bebê de nove meses, foram resgatados em um bote à deriva no mar.

FAMÍLIA O empresário Jorge Sestini, com quem Caroline Bittencourt estava casada há três meses, ficou cinco horas à deriva no mar; ao lado, a filha Isabelle (Crédito:Divulgação)
“Eu pulei na água e ajudei a tirar o corpo do mar. Fiz isso por ela”
Orley Bittencourt, pai de Caroline(Crédito:Divulgação)

De acordo com dados da Superintendência de Segurança do Tráfego Aquaviário, da Diretoria de Portos e Costas da Marinha do Brasil, houve cerca de 200 acidentes com embarcações de esporte em 2018. O período em que eles mais ocorrem é no verão e a maior parte dos casos acontece com lanchas (56%) e motos aquáticas (21%). Os acidentes são causados principalmente por falha humana e os mais comuns são naufrágio, abalroamento, queda de pessoas na água, incêndio e colisão. Nesse período em que o turismo aumenta, a fiscalização da Marinha se intensifica e são realizadas palestras educativas em locais como marinas, clubes e colônias de pescadores. Apesar da realização dessas iniciativas, elas não são suficientes para coibir os casos. Um dos principais motivos dos acidentes é a imprudência dos navegantes e o desconhecimento da região e dos cuidados necessários ao entrar no mar. E o grande empecilho na preservação da vida é achar que “comigo nunca vai acontecer”.

Com água não se brinca e é melhor não se aventurar sem necessidade. Ao avistar uma leve mudança de tempo no mar, por exemplo, as pessoas devem ir imediatamente para a terra, também para evitar raios. Além disso, é importante que os coletes salva-vidas estejam em número suficiente e à mão, não guardados em locais de difícil acesso, como parece ter acontecido no acidente que matou Caroline. Quem sabe, diante de tanta tristeza causada pela perda da modelo, esse pode ser um alerta para que as pessoas reflitam e não assumam o risco de enfrentar a natureza, especialmente em tempos com tantos recursos tecnológicos capazes de prever os perigos do mar.

Levadas pelo mar

Eduardo Lazzarini/Folhapress

Foi também em um terrível acidente que outra modelo, Fernanda Vogel, morreu aos 20 anos. Ela estava em um helicóptero do grupo Pão de Açúcar com o empresário João Paulo Diniz, de 37 anos, filho de Abílio Diniz, quando a aeronave caiu, por volta das 18h30 do dia 27 de julho de 2001. Eles haviam saído de São Paulo e partido em direção ao litoral norte de São Paulo e foram derrubados por um ciclone a cerca de 3 km de Maresias, em São Sebastião. João Paulo, triatleta, conseguiu nadar até a praia, mas Fernanda não resistiu. Além da região, em comum com a recente tragédia está o fato de que naquela ocasião a previsão meteorológica também alertava sobre o mau tempo. Outra coincidência aproxima os dois episódios: no passado, a modelo Caroline Bittencourt namorou com o empresário João Paulo Diniz.

Da Istoé

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