(Reuters Health) — Postagens nas mídias sociais sobre jogos de suicídio podem ser compartilhadas on-line durante meses antes da mídia oficial noticiar, ajudando a alertar os pais sobre a potencial ameaça, sugere um estudo norte-americano.

Os pesquisadores traçaram o caminho de um jogo de suicídio, o “desafio da baleia azul”, amplamente divulgado nas mídias sociais e na mídia oficial entre 2013 e 2017. No momento em que foi dada a primeira notícia sobre este jogo de suicídio nos EUA, o jogo já vinha circulando em postagens nas mídias sociais em língua inglesa há quatro meses e em outros idiomas há nove meses, observou o estudo.

Jogos suicidas como Baleia Azul

Ninguém sabe ao certo se esse jogo realmente existiu ou se algum adolescente se machucou mesmo, ou se trata-se de um boato bem elaborado. Mas como os relatos sobre estes jogos suicidas continuam a viralizar – inclusive o mais recente, conhecido como o “desafio Momo” – os pesquisadores dizem que é crucial que os pais saibam ao que suas crianças e adolescentes estão expostos em suas vidas digitais.

“É importante que os pais tenham uma comunicação aberta com seus filhos sobre o que eles veem na internet”, disse o primeiro autor do estudo, Dr. Steven Sumner, do National Center for Injury Prevention and Control dos Centers for Disease Control and Prevention (CDC), em Atlanta.

“Relacionamentos fortes e acolhedores, especialmente entre pais, mães e filhos, ajudam a proteger contra o suicídio”, disse o Dr. Steven por e-mail.

Para o estudo atual, os pesquisadores coletaram 95.555 postagens nas mídias sociais e notícias sobre o desafio da baleia azul. No total, cerca de 28% dessas postagens e notícias apoiavam ou promoviam o jogo.

Até o final dos 4,5 anos do estudo, as postagens apoiando o jogo tinham se espalhado para 127 países em todo o mundo.

De várias formas, jogos suicidas na mídia social podem desafiar as crianças e os adolescentes a fazer uma série de tarefas, às vezes começando com sugestões pouco prejudiciais e a seguir escalando até induzir os jovens a se ferir ou se matar. Podem veicular imagens terríveis ou fazer ameaças; pouco foi verificado sobre esses jogos e não está claro se muitas crianças e adolescentes têm participado.

Entender melhor como jogos como este funcionam e se espalham nas mídias sociais e em outras partes da internet pode ajudar os pais e os médicos a detectar mais cedo as potenciais ameaças, concluíram os pesquisadores na edição on-line de 26 de fevereiro do periódico Journal of Adolescent Health.

“O verdadeiro desafio é identificar novos jogos antes de virarem moda”, disse o Dr. John Ayers, pesquisador em saúde pública da University of California, em San Diego, que não participou do estudo.

“Isso é dificultado quando precisamos diferenciar os acontecimentos reais dos fictícios”, disse Dr. John por e-mail.

“Eu gostaria de dizer que temos uma solução mágica, que pode identificar esses jogos e eliminá-los da internet, mas não temos, e provavelmente nunca teremos”, acrescentou Dr. John.

“Consequentemente, recai sobre a família e os amigos a responsabilidade da diligência e da procura de indícios suicidas entre seus entes queridos e seja qual for a origem do seu comportamento, ajudá-los”.

A viralização de conteúdos de jogos de suicídio pode ser nova, mas pais se preocupando com crianças que fazem coisas perigosas ou idiotas não é novidade, observou Dr. Martin Monto, Ph.D., sociólogo e pesquisador na University of Portland, em Oregon, que não participou do estudo.

“A tendência de perceber que há uma crise entre os ‘jovens de hoje em dia’ tem sido um tema recorrente há décadas”, disse Dr. Martin por e-mail. “Temos inclusive registros de psicólogos de 1920 alardeando níveis sem precedentes de ‘perturbação mental’ entre os jovens”.

A incidência de suicídio entre os jovens tem aumentado nos Estados Unidos nos últimos anos, contudo, os níveis atuais são semelhantes aos níveis da década de 1990 e não são sem precedentes, disse Dr. Martin.

Os pais podem ainda ser proativos e conversar com seus filhos sobre o que fazer caso se deparem com jogos de suicídio na internet, disse a Dra. Kimberly McManama O’Brien, pesquisadora no Boston Children’s Hospital e na Harvard Medical School, que não participou do estudo.

“A existência destes jogos oferece uma oportunidade preciosa para os pais começarem a conversar com seus filhos sobre o suicídio”, disse a Dra. Kimberly por e-mail. “Embora o desafio da baleia azul possa não ser real, o fenômeno do suicídio é, e deve fazer parte das conversas em família”.

Fonte: https://bit.ly/2H9br6D J Adolesc Health 2019.

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