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Polícia

Jornalistas são torturados por milicianos no RJ; Equipe foi espancada por 7 horas

Na sala em que os jornalistas foram espancados, havia coturnos e uma calça azul da farda da Polícia Militar

Uma repórter, um fotógrafo e um motorista do jornal “O Dia” foram torturados por milicianos que dominam a Favela do Batan, em Realengo. A equipe, disfarçada, estava morando há duas semanas em um barraco na comunidade, preparando uma reportagem sobre o cotidiano de quem vive sob o domínio de uma milícia. Descobertos pelos bandidos, no último dia 14, os três foram torturados por sete horas e meia, com choques elétricos, socos e pontapés. A denuncia é manchete da edição deste domingo de “O Dia”, que chegou na tarde deste sábado às bancas. A Secretaria de Segurança informou ter determinado a abertura de uma investigação para apurar o seqüestro e a tortura.

Durante o espancamento, a repórter chegou a ser submetida a uma “roleta-russa” e viu um marginal rodar o tambor do revólver e apertar por duas vezes o gatilho da arma, apontada em sua direção. Os milicianos, que tiveram o apoio de policiais militares, enfiaram ainda um saco plástico na cabeça da jornalista. Após serem torturados e terem o dinheiro e os equipamentos roubados, os três foram libertados às 4h30m na Avenida Brasil.

De acordo com a Secretaria de Segurança, o comandante da Polícia Militar, tenente-coronel Gilson Pitta, e o chefe de Polícia Civil, delegado Gilberto Ribeiro, já se reuniram para discutir o assunto. As investigações serão feitas pela Delegacia de Repressão às Ações do Crime Organizado e Inquéritos Especiais (Draco) e pela Corregedoria da Polícia Militar. Ainda segundo a Secretaria de Segurança, a Corregedoria Geral Unificada (CGU) também acompanhará as investigações devido à suspeita de participação de policiais.

Às margens da Avenida Brasil, a Favela do Batan estava sob o domínio de uma facção criminosa, até os traficantes serem expulsos pela milícia. A troca de comando provocou temor entre os moradores. De acordo com a reportagem do jornal “O Dia”, os moradores se negaram a linchar a repórter, mesmo instigados pelos milicianos.

Levados para um barraco, a equipe foi forçada a entregar a senha de seus e-mails. Quando conferiram o material já enviado à redação, os milicianos redobraram os castigos. Textos e fotos mostravam viaturas circulando tranqüilamente pela comunidade, assim como policiais conversando com integrantes da quadrilha. Na sala em que os jornalistas foram espancados, havia coturnos e uma calça azul da farda da Polícia Militar.

Entidades da sociedade civil classificam a tortura à equipe do jornal “O Dia”, na Favela do Batan, em Realengo, como o maior atentado à liberdade de informação desde o fim do regime militar.

Aziz Filho, secretário-geral do Sindicato de Jornalistas Profissionais do Rio, pede à sociedade que se solidarize com os profissionais envolvidos. Para ele, o fato será para as milícias o que a bomba do Riocentro foi para a ditadura:

– Vai ser uma bomba que vai estourar no colo deles e desmoralizar as milícias. Se usam de tamanha truculência com jornalistas, imagina o que elas fazem com pessoas humildes que moram na comunidade e não seguem as leis locais. A única solução é o estado garantir a segurança da sociedade.

Aziz anunciou que o sindicato convocará uma conferência para os profissionais de comunicação. Ele afirma que um caso deste de infiltração requer meses, ou até anos de treinamento no mundo todo. Para Aziz, nenhuma matéria ou prêmio jornalístico valem arriscar vidas, mas ressalta que ainda não sabe que tipo de medida de segurança foi adotada pelo jornal.

O presidente da OAB-RJ, Wadih Damous, tem opinião semelhante a de Aziz. Ele afirma que o caso prova que as milícias são grupos formados por bandidos que cometem crimes e não têm o objetivo de ajudar às comunidades:

– O que preocupa mais é a possibilidade de haver policiais envolvidos nesse banditismo. É de se exigir que a Secretaria de Segurança e o governador venham a público esclarecer isso. É mais um caso que mostra o fracasso da política de segurança pública no Rio, que não enfrenta os focos de corrupção na polícia.

O presidente da Associação Brasileira de Imprensa, Maurício Azêdo, definiu a tortura à equipe de reportagem como um episódio “infelizmente previsível”.

– Como estes grupos criminosos agem de uma forma encoberta, há um apelo à repressão sempre que os meios de comunicação procuram esclarecer como funciona o mundo do crime – pondera. – Recebi a notícia com grande desconforto e preocupação. Os jornalistas se arriscam para satisfazer as necessidades de informação da sociedade. A equipe torturada cumpriu com coragem e firmeza a sua obrigação de informar.

As informações são de O Dia

Sobre o autor

Jornalista, editor de Painel Político, consultoria e assessoria.
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