MPF investiga denúncia de tortura após soldados passarem mal durante treinamento do Exército

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Segundo hospital, 11 recrutas foram socorridos, sendo que alguns tiveram hipotermia. Curso de sobrevivência em mata incluía 256 jovens

O Ministério Público Federal (MPF) instaurou, nesta segunda-feira (29), um inquérito para investigar recorrentes torturas contra soldados do Exército durante treinamentos no batalhão de Jataí, na região sudoeste de Goiás. Na última semana, segundo o Serviço Social do Hospital das Clínicas da cidade, 11 jovens passaram mal e foram atendidos na unidade de saúde.

G1 pediu, às 16h34, um posicionamento ao Exército sobre as denúncias e aguarda retorno. No sábado (27), o Comando do 41º Batalhão de Infantaria Motorizado informou que “instaurou sindicância para a apuração dos fatos e que encontra-se realizando as medidas administrativas necessárias para o apoio aos militares baixados no Hospital das Clínicas de Jataí” (veja a nota na íntegra ao fim do texto).

Com duração prevista de uma semana, o curso de sobrevivência em mata fechada incluía 256 soldados e começou na segunda-feira (22), mesmo dia em que o primeiro jovem foi levado para o hospital. No fim de semana, todos os que haviam passado mal já tinham recebido alta médica.

Registro mostra soldado tendo a cabeça pisada por superior em Jataí em 2017 — Foto: Divulgação/MPF

“Eu vi desde o primeiro soldado que chegou aqui. Eles chegaram bem sujos, molhados, bem ruins, com hipotermia”, disse uma funcionária do hospital, que não quis se identificar.

Denúncias

O inquérito foi instaurado pelo procurador da República Jorge Luiz Ribeiro de Medeiros. Parentes dos soldados procuraram o MPF para registrar as denúncias que já haviam feito à reportagem da TV Anhanguera. Conforme o órgão, as famílias disseram que os jovens foram submetidos a excessivo treinamento físico e agressões por parte dos instrutores.

“O filho tinha avisado que não estava passando bem, e um deles [militares] o agrediu, dando chute”, disse uma mãe, que não quis ser identificada.

Os familiares também questionaram a demora do batalhão em avisá-los sobre a entrada dos recrutas no hospital. Em nota, na ocasião, o Exército afirmou que priorizou o resgate dos soldados a avisar aos familiares e que ia apurar a denúncia de agressões.

Torturas recorrentes

Em março do ano passado, o procurador entrou com uma ação civil pública contra a União, pedindo R$ 15 milhões por danos morais coletivos, depois que um soldado foi filmado sendo torturado no quartel de Jataí. O caso aconteceu em 2017.

No pedido, o MPF também defendeu ser ilegal a aplicação de um questionário no qual os candidatos devem informar se participam de movimentos sociais, religiosos ou políticos. O órgão informou que, até esta segunda-feira, não há uma decisão do Poder Judiciário sobre a ação.

Na época, ao ser questionado sobre o processo acima, o Centro de Comunicação Social do Exército informou ao G1, por meio de nota, que o Exército Brasileiro não tinha conhecimento da ação. A reportagem pediu nesta segunda-feira um novo posicionamento sobre o processo e aguarda retorno.

Veja a nota completa do Exército:

“Em 22 de abril de 2019, 256 soldados incorporados às fileiras do Exército em 1º de março do corrente ano para cumprir o serviço militar obrigatório, iniciaram o 1º Exercício de Longa Duração (relativo ao Período de Instrução Individual Básica), conduzido em área de cerrado, no campo de instrução do 41º Batalhão de Infantaria Motorizado.

Entre os dias 24 e 25 de abril de 2019, quatro soldados, em momentos e situações diferentes, sentiram-se mal. Após receberem, de forma imediata, os primeiros atendimentos no posto médico militar instalado na área do campo de instrução, os soldados foram transportados para o HOSPITAL DAS CLÍNICAS de JATAÍ/ GO, para atendimento especializado.

Nesta Unidade Hospitalar, os quatro soldados receberam o tratamento especializado e passaram por procedimentos médicos. Posteriormente, foram conduzidos para a sala de observação (Enfermaria), para receberem medicações e hidratação.

Às 16:00 horas do dia 26 de abril de 2019, o primeiro dos quatro militares recebeu alta hospitalar. Os soldados que ainda permanecem no Hospital vêm apresentando quadro estável, com o prosseguimento do acompanhamento médico e realizando alimentação normal, sem restrições.

A informação aos familiares dos soldados obedeceu ao protocolo do diagnóstico preciso, para que a informação pudesse chegar aos familiares sem transtornos.

Por outro lado, os exercícios e treinamentos operacionais, aos quais os militares são submetidos, são acompanhados de forma profissional e dentro dos mais rígidos padrões de segurança. Contudo, é de procedimento normal, a apuração rigorosa e dentro da Lei, de qualquer intercorrência que fuja à normalidade. O Comando do 41º Batalhão de Infantaria Motorizado instaurou Sindicância para a apuração dos fatos.

Por fim, este Comando encontra-se realizando as medidas administrativas necessárias para o apoio aos três militares baixados no Hospital das Clínicas de Jataí e aguarda seu pronto restabelecimento e alta hospitalar”.

G1/GO

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