Por que mulheres viram lésbicas depois de uma certa idade?

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Perguntei “qual é a boa” e ela gritava “a melhor de todas é que virei sapatão”, às gargalhadas

Não é um caso, não são dois casos nem três. São inúmeras as situações de mulheres que passam a namorar/casar com outras mulheres, numa idade mais avançada. Famosas, anônimas, amigas minhas, conhecidas, amigas de amigas, ex de meus ex-namorados. Sempre me perguntei os motivos e toda vez fico besta com o quanto, depois desse redirecionamento, me parecem mais felizes, estilosas e bem cuidadas.

Há teorias, claro. Inclusive aquela de que a homossexualidade dessas mulheres foi reprimida e apenas numa idade mais madura tiveram “coragem” para alinhar o desejo com a vida prática. Obviamente, pode ser isso, em alguns casos. Mas não em todos, tenho certeza. Também extremamente reprimidos nesse aspecto, não chama atenção a quantidade de homens que formam casais com outros homens, quando “chegando para a idade”. Acho que tem (muito) mais coisa aí. Incluindo a vontade de viver a segunda etapa da vida numa parceria de verdade.

Enquanto escrevo, lembro de minha mãe me contando, no Verão passado: “menina, Lila tá namorando com uma mulher”. Lila é nossa vizinha, durante os veraneios. Namoradeira famosa na cidade, nos acostumamos a conhecer, a cada janeiro, mais um filho da prole que tem gente de tudo que é tamanho e qualidade. São mais de dez, acho. Pois, neste ano, a mãe de tantos (e mulher de muitos homens) não apresentou criança alguma e sim uma novidade. Eu e mainha custamos a acreditar que aquela entusiasta do sexo hetero e reprodução em larga escala estivesse ali, plena, ao lado de uma namorada.

De tudo se cansa, é verdade. Olhando pra Lila, fiquei imaginando que, entre as que eram lésbicas reprimidas e as que (ô sorte!) são bissexuais, devem estar também as que sofreram traumas ou, apenas, enjoaram de macho. Inclusive porque, motivos não nos faltam. Tenho uma grande amiga, por exemplo, que sempre gostou de transar com homens, mas não aguentava o que são fora da cama. Por volta dos 40, parou com eles e passou a investir nelas. Linda e poderosa, está casada e feliz com uma moça fenomenal. 

Exemplos não me faltam. O mais recente é o de uma conhecida que, muitos anos depois de um casamento hetero com um cara que não admitia ter um filho, tá maravilhosamente grávida, num relacionamento homoafetivo. Outro, é o de uma colega de faculdade que encontrei, outro dia, numa pista de dança. Perguntei “qual é a boa” e ela gritava “a melhor de todas é que virei sapatão”, às gargalhadas, apontando a moça que aparece nos posts, agarradinha com ela, seja Inverno ou Verão.

Obviamente, nenhuma dessas mulheres está preocupada com a minha opinião. E nem com a sua, claro. Mas eu quero dizer duas coisas. Primeiro, que eu entendo super quem enjoa de homem. Faz tempo que eu me sinto “guerreira”, em cada relação hetero que vivo, porque tá osso – depois de entender tantas coisas e conseguir farejar enrascada – conectar com esses caras. Confesso, inclusive, que insisto apenas porque a mim não foi dada a bênção da bissexualidade. A outra coisa é que, em anos de vizinhança, esse foi o primeiro Verão em que vi Lila acompanhada, na praia. Até então, sempre vi sozinha e mal humorada, essa mulher que, durante quase toda a vida, teve e foi de tantos machos.

De Flávio Azevedo – Texto publicado originalmente no Correio24horas

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