Sem concorrência, companhias aéreas brasileiras cobram preços de voo internacional para destinos domésticos

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Enquanto isso, quem precisa viajar pelo Brasil continua sentindo no bolso os efeitos de um mercado com pouca concorrência

Desde que a Avianca suspendeu seus voos no Brasil, após um pedido de recuperação judicial, os preços dos bilhetes para voos domésticos dispararam, e têm se equiparado aos valores de passagens para o exterior. Às vezes, têm até ultrapassado. Para quem está programando as próximas férias e pretende viajar para outro estado do país, a notícia não é boa: a tendência é que os custos dos bilhetes nacionais não caiam tão cedo.

Atualmente, os voos para destinos brasileiros estão concentrados em apenas três grandes companhias aéreas: Gol, Azul e Latam. Desde 2005, vigora no país a política de liberdade tarifária para os voos domésticos, o que faz com que as empresas possam fixar os preços das passagens sem regulação.

Para o economista Alessandro Oliveira, apesar de a experiência mundial mostrar que o mercado de aviação funciona melhor sem regulação, o fato de haver poucas empresas no Brasil fez com que os custos das passagens nacionais tenham subido significativamente:

— Com a quebra da Avianca, o mercado saiu de um ‘quadripólio’ para um ‘tripólio’. O que significa isso? Que no curto prazo, tem-se o mesmo número de passageiros sendo distribuído para menos empresas. É até meio automático no sistema de reserva os preços começarem a subir. Não é apenas estratégico, é uma questão de racionamento da capacidade — explicou.

Ainda segundo o economista, a tendência é que, no médio ou no longo prazos, o mercado se acomode com três companhias, e os preços caiam. Mas ainda não é possível prever quando isso deverá acontecer.

Enquanto isso, quem precisa viajar pelo Brasil continua sentindo no bolso os efeitos de um mercado com pouca concorrência. É o caso da administradora Danielle Lorenzo Oitaven, de 30 anos, que mora com o namorado no Rio, mas precisa ir a Salvador (BA), sua cidade natal, com frequência para ver a família.

— Este ano, temos três passagens para comprar: temos um evento em outubro, depois o feriado de 15 de novembro, e já estamos olhando bilhetes para o Natal. A viagem de outubro está custando R$ 900 (ida e volta). Para o Natal, a mais barata está na faixa de R$ 1.300. Desde que a Avianca começou a diminuir os voos, passamos a perceber esse aumento nos preços. Antes, uma passagem cara, no Natal, por exemplo, custava R$ 600 — disse.

A reportagem pesquisou os preços dos bilhetes aéreos para Salvador, no feriadão de 15 a 20 de novembro deste ano. O valor do voo mais barato encontrado foi de R$ 1.606 (ida e volta), com as taxas incluídas. Por esse preço, seria possível viajar a diversos países da América Latina, como Chile, Paraguai, Uruguai e Argentina, conforme o quadro abaixo.

Preço da passagem para Salvador no feriadão é mais alto que para destinos na América do Sul
Preço da passagem para Salvador no feriadão é mais alto que para destinos na América do Sul

Concorrência maior em voos para o exterior

Para o coordenador do MBA em Finanças do Ibmec/RJ, Nelson de Sousa, uma possível redução dos preços das passagens domésticas poderia ser acelerada com a entrada das companhias estrangeiras low cost (de baixo custo) no país, que poderiam disputar com as empresas nacionais a concorrência pelos voos dentro do Brasil:

— Isso aconteceu em diversos países. E poderia ser mais incentivado com a permissão para que as companhias cobrem pelo despacho de bagagens.

Desde o ano passado, quatro estrangeiras de baixo custo já receberam autorização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para operar no Brasil: a chilena JetSmart e a argentina Flybondi, além da norueguesa Norwegian e da chilena Sky Airline. No entanto, todas vão realizar apenas voos internacionais, o que não impacta na redução dos preços de voos nacionais. Por outro lado, tornam os destinos fora do país mais baratos.

Alta no segundo semestre

A analista de RH Thaisa Casimiro Monteiro, de 34 anos, também sentiu um aumento nos preços das passagens do Rio, onde mora, para Belém (PA), sua cidade natal:

— Da última vez em que voei, em maio deste ano, paguei cerca de R$ 650 pelos bilhetes de ida e volta. Pesquisei há uma semana, e os valores já estavam extremamente altos. Paguei cerca de R$ 1.800, que é o preço de passagens para o exterior. Em vez de diminuírem os valores por causa da cobrança das bagagens, só aumentam.

Para pagar mais barato, o economista Alessandro Oliveira sugere evitar os períodos com muita procura:

— É mais barato voar quando a grande maioria não quer viajar. O primeiro semestre costuma ter preços melhores, já que no segundo a atividade econômica é maior, e o segmento de negócios viaja mais. Outra opção é pesquisar nas horas em que ninguém está online, de madrugada, quando as companhias podem liberar descontos.

Danielle sentiu o aumento de preços para Salvador
Danielle sentiu o aumento de preços para Salvador Foto: Alexandre Cassiano / Agência O Globo

‘Só tem voo direto de uma companhia’

Danielle Lorenzo, administradora, 30 anos

Eu gostaria de ir a Salvador todos os meses, porque eu e meu namorado temos família lá. Mas uma frequência de dois em dois meses já seria ideal. Mas não conseguimos viajar assim porque os horários em que poderíamos ir, por causa do trabalho, são os horários mais caros. Hoje em dia, é impossível. Você paga mil reais pela passagem de ida e volta. Se for em cima da hora, paga mil reais por trecho, ou seja, no fim das contas, as passagens de ida e volta ficam por R$ 2 mil. O passageiro que estar sempre tentando encontrar uma promoção. Além disso, o mercado afunilou muito. Só tem voo direto de uma companhia, desde que a Avianca acabou.

A reportagem é do Extra

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