Testosterona aumenta o bem-estar sexual das mulheres mais velhas

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Os pesquisadores disseram que as mulheres têm sido tratadas com “várias formas de testosterona há décadas”

Mulheres com diminuição da libido ou disfunção sexual após a menopausa poderiam se beneficiar da testosterona, com as apresentações não orais oferecendo melhor perfil de segurança lipídico, sugere uma revisão sistemática que, por outro lado, destaca a falta de evidências sobre o uso da testosterona pelas mulheres antes da menopausa.

Também há pouquíssimos dados sobre vários dos principais desfechos, disse o Dr. Rakibul M. Islam, Ph.D., da Monash University, em Melbourne, Austrália, e colaboradores, que estudaram dados de quase 8.500 mulheres que participaram de ensaios clínicos randomizados e controlados sobre tratamento com testosterona.

A pesquisa, publicada em 25 de julho no periódico Lancet Diabetes & Endocrinology, mostrou que as mulheres que receberam o hormônio apresentaram melhora em toda a gama de avaliações da função sexual versusplacebo ou tratamentos hormonais alternativos, especialmente em termos de frequência das relações sexuais e do desejo sexual.

No entanto, a metanálise também revelou que as apresentações orais da testosterona tiveram efeitos adversos nas concentrações séricas de alguns lipídios – efeitos esses não observados nas outras apresentações.

E, embora a testosterona não pareça ter tido nenhum efeito na pressão arterial, na saúde mamária e nos níveis de glicemia ou de insulina, nem em termos de eventos adversos graves, o número de mulheres participantes foi pequeno demais para permitir conclusões definitivas, disseram os pesquisadores.

Os autores observaram que a revisão “oferece uma base sólida para a realização de ensaios clínicos sobre o tratamento com testosterona, utilizando uma dose adequada para as mulheres, quando houver indicação clínica após a menopausa”.

Faltam produtos específicos para mulheres

Os pesquisadores também destacaram o fato de as apresentações de testosterona serem projetadas apenas para os homens. A ausência de qualquer “apresentação de testosterona indicada especificamente para as mulheres em qualquer país é uma grande barreira ao tratamento”.

“Este déficit precisa urgentemente ser resolvido para erradicar a prática generalizada de as mulheres serem tratadas com apresentações e formulações destinadas aos homens, resultando em concentrações de testosterona muitas vezes acima do apropriado para elas”, disseram os autores.

No comentário que acompanha o estudo, a Dra. Rossella E. Nappi, Ph.D., médica do Centro per la Procreazione Medicalmente Assistita e l’Ambulatorio di Endocrinologia Ginecologica & della Menopausa , Clinica Ostetrica e Ginecologica da Università degli Studi di Pavia, na Itália, disse que o estudo tem “várias mensagens fundamentais”.

Ratificando os pesquisadores, a Dra. Rossella escreveu que, “quando há indicação clínica, a testosterona é benéfica para a função sexual” de mulheres após a menopausa com diminuição da libido ou disfunção sexual generalizada.

A médica acrescentou: “O tratamento com testosterona deve ser prescrito de modo a atingir as concentrações séricas fisiológicas das mulheres antes da menopausa, apesar de não terem sido determinados os limiares dos androgênios para discriminar entre as mulheres que têm ou não diminuição da função sexual.”

No entanto, a comentarista também contrapôs que “os dados disponíveis sobre as mulheres antes da menopausa são insuficientes para respaldar o uso da testosterona”.

Poucas análises de segurança

Os pesquisadores disseram que as mulheres têm sido tratadas com “várias formas de testosterona há décadas”, em grande medida por redução do bem-estar sexual, com revisões sistemáticas anteriores encontrando efeitos benéficos para a função sexual.

No entanto, os autores observaram que houve pouca análise dos potenciais efeitos adversos do uso da testosterona pelas mulheres.

Para avaliar melhor os potenciais benefícios e prejuízos do tratamento, a equipe pesquisou, portanto, bancos de dados como Medline, Embase, Cochrane Central Register of Controlled Trials e Web of Science.

Especificamente, os pesquisadores procuraram ensaios clínicos randomizados, cegos e controlados feitos entre 1990 e 2018, nos quais mulheres pré ou pós menopausa entre 18 e 75 anos de idade que haviam sido tratadas com testosterona durante pelo menos 12 semanas.

Os pesquisadores também identificaram dados não publicados de pedidos de registros de medicamentos para a European Medicines Agency (EMA) e pela Food and Drug Administration (FDA) norte-americana.

A partir de uma lista inicial de 6.491 citações, 46 publicações de 36 ensaios clínicos controlados randomizados corresponderam aos critérios de inclusão, dos quais dois eram ensaios inéditos.

Treze estudos avaliaram especificamente mulheres com diminuição da libido e uma mulher recrutada com base nos seus baixos níveis séricos de testosterona.

No total, 8.480 mulheres participaram da metanálise de 43 publicações sobre mulheres após a menopausa, duas sobre mulheres antes da menopausa e uma com mulheres antes e depois da menopausa.

A administração de testosterona oral foi utilizada em 15 ensaios clínicos e os adesivos transdérmicos foram usados em 13 ensaios clínicos.

A pomada transdérmica foi utilizada em mais dois ensaios; dois usaram gel transdérmico; e um spray transdérmico, uma apresentação sublingual, uma injeção intramuscular e um implante subcutâneo foram utilizados em um ensaio clínico cada.

Melhora de vários parâmetros

A análise mostrou que a testosterona aumentou vários parâmetros da função sexual em comparação com o placebo ou, por exemplo, o estrogênio – com ou sem progestógenos.

Estes parâmetros foram: frequência de relação sexual satisfatória (= 0,014), desejo sexual (< 0,0001), prazer (= 0,906), excitação (= 0,579) e orgasmo (= 0,669).

Também houve melhora significativa da resposta aos estímulos (= 0,885), da autoimagem (= 0,545), diminuição das preocupações relacionadas com o sexo (= 0,637) e do desconforto sexual (= 0,192).

A testosterona administrada por via oral foi associada a aumento significativo dos níveis de lipoproteína de baixa densidade (LDL, do inglês Low Density Lipoprotein) (< 0,0001) e redução dos níveis de lipoproteína de alta densidade (HDL, do inglês High Density Lipoprotein) (= 0,0001). No entanto, a testosterona oral diminuiu o colesterol total (= 0,032) e os triglicerídeos (= 0,001). As apresentações de testosterona por outras vias, que não a oral, não foram associadas a alterações lipídicas.

Nenhuma apresentação de testosterona foi associada a alterações dos níveis séricos de insulina e de glicose, da pressão arterial ou da relação cintura-quadril.

“As vias de administração não oral de testosterona têm melhor perfil cardiometabólico em curto prazo, mas isso não se traduz em segurança cardiovascular pela quase ausência de dados em longo prazo e pelos critérios de seleção usados nos ensaios clínicos randomizados e controlados que excluíram as mulheres de alto risco que também tinham indicação de reposição de estrogênio“, observou a Dra. Rossella.

E houve uma indicação, proveniente de cinco estudos com 2.032 mulheres, de que o uso da testosterona promoveu algum ganho ponderal, com uma diferença média de 0,48 kg (= 0,566).

A testosterona não teve efeitos sobre densidade mineral óssea, composição corporal ou força muscular, e não teve nenhum impacto no desempenho cognitivo ou sobre o humor, embora o número de mulheres dessas análises tenha sido pequeno.

A revisão sugeriu que a testosterona foi associada a aumento do risco do que a Dra. Rossella chama de discretos efeitos adversos “estéticos”, como acne e crescimento de pelos, mas estes efeitos secundários não causaram a suspensão do tratamento e não foram observados outros efeitos androgênicos.

Não houve eventos adversos graves associados ao uso de testosterona.

Estudos de longo prazo em mulheres com doenças específicas

Os pesquisadores indicaram que sua revisão teve várias limitações, dentre as quais a não menos importante foi sua dependência em relação à qualidade dos estudos.

Houve também poucos dados sobre mulheres antes da menopausa; no entanto, alguns estudos descreveram os efeitos da testosterona sobre a saúde musculoesquelética, desempenho cognitivo, humor e bem-estar, o risco de câncer de mama e doença cardiovascular.

Por conseguinte, Dra. Rossella destaca a necessidade de “adquirir conhecimento sobre o papel terapêutico da testosterona para as mulheres projetando estudos de longo prazo adequados para abordar os benefícios e os riscos para uma longevidade saudável em caso de determinadas doenças clínicas relevantes”.

A comentarista acrescentou que “há uma necessidade urgente na área da medicina sexual de assegurar a igualdade entre os sexos tratando com eficácia as mulheres com disfunção sexual claramente relacionada com quadros hipoandrogênicos”.

“No entanto, para alcançar este objetivo, devem ser disponibilizados produtos aprovados especificamente para as mulheres; atualmente, só estão disponíveis apresentações voltadas para o sexo masculino, e os médicos ajustam as doses para o intervalo de testosterona circulante no organismo feminino”, reiterou Dra. Rossella.

Essa pesquisa foi financiada por um subsídio do projeto de parceria doNational Health e Medical Research Council. Davis informou receber honorários de Besins Healthcare e da Pfizer Australia e tem feito consultoria para as empresas Besins Healthcare, Mayne Pharmaceuticals, Lawley Pharmaceuticals, e Que Oncology. Os outros autores do informaram não ter conflitos de interesse financeiros relevantes. Dra. E. Rossella Nappi informou receber honorários por palestras, fazer parte de conselhos e prestar consultoria para as empresas Bayer HealthCare, Endoceutics, Exeltis, Gedeon Richter, MSD, Novo Nordisk, Palatin, Pfizer, Shionogi, Teva e Theramex.

Lancet Diabetes Endocrinol. Publicado on-line em 25 de julho de 2019. Abstract

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