Celebrações começaram gradativamente na casa da professora baiana Anáide Braga. Hoje, ela chega a receber cerca de 50 devotos para agradecer graças alcançadas

Uma das principais tradições religiosas do mês de junho é a trezena de Santo Antônio. Muitas vezes, o costume é passado por gerações e o encontro para as orações em devoção ao “casamenteiro” acontece dentro das casas dos fiéis.

É assim na residência da professora Anáide Braga, que mora no bairro de Itapuã, em Salvador. Na família dela, a prática já segue a mais de 40 anos. Diferente do habitual pedido de matrimônio, a graça alcançada foi outra.

“Foi um costume que herdei da família mesmo, mas minha aproximação com Santo Antônio não tem nada a ver com casamento. Minha história foi há um tempo, ainda na adolescência. Eu fui atropelada no dia 11 de junho e fiquei hospitalizada. Só retornei para casa no dia 13, dia dele. Aí meu pai começou a fazer essa oração, tanto em agradecimento, como para pedir um bom restabelecimento. Depois disso, não paramos mais”, lembra ela.

Inicialmente, a reza na casa de Anáide era apenas no dia 13 de junho. Depois a família passou a fazer as orações também nos dois dias que antecedem a data.

“Minha família é bastante católica, então pegamos o hábito. Depois a gente passou para três dias, ainda na minha adolescência. Eu casei, tive filho e sempre íamos para casa dos meus pais participar do tríduo de oração. A medida que eu fui envelhecendo, meu pai passou dessa devoção para mim. Aí eu levei para minha casa”, conta a professora.

Junto com a responsabilidade de manter a tradição religiosa, Anáide herdou do pai um caderninho com cânticos, orações antigas e letras de ladainhas – muitas em latim.

“O livro que eu tenho é ainda escrito por ele. Mesmo tendo as orações da igreja, eu optei por seguir o que foi passado por meu pai. A tradição da igreja vai se perdendo, o latim vai sendo misturado. O livrinho é uma forma de preservar a memoria afetiva. Hoje eu guardo ele como recordação. Nós digitamos o que tinha nele e a gente distribui para quem chega para participar da oração”.

Depois dos agradecimentos e pedidos, o tríduo era fechado com chave de ouro. Anáide conta como era feita a celebração nos três dias, prática que gerou a distribuição do caruru – comida típica baiana que geralmente é ofertada depois de comemorações religiosas.

“A primeira noite era dedicada às crianças. A comida que a gente comia depois eram comidas que as crianças normalmente gostam, como cachorro-quente, brigadeiro. A segunda noite era dedicada aos namorados, já que era no dia 12 de junho. Aí a gente fazia comidas para a gente mesmo. Bolos e comidas típicas de São João. Na terceira e última noite a gente dedicava aos idosos. Aí começou a distribuição do caruru”.

Com a tradição do tríduo de Santo Antônio já estabelecida, a família de Anáide alcançou outra graça pedida. Desta vez, foi a vez dela de retribuir o pedido.

“Há mais ou menos 15 anos, meu pai passou mal. Foi no mês de abril. Aí eu prometi ao santo rezar a trezena pela boa recuperação dele. Desde então, eu comecei a rezar em casa sempre nos 13 dias, a partir do dia 1º de junho.

O número de pessoas que participam da trezena na casa da professora cresce gradativamente, como explica ela. Se nos primeiros dias Anáide recebe uma média de 12 pessoas, no dia oficial do Santo Antônio, a residência chega a abrigar cerca de 50 devotos.

“Como são treze noites, vão chegando mais pessoas à medida que vai se aproximando na data. Aí nos juntamos, fazemos nossos cânticos. Depois, em silêncio, cada um agradece pela graça, faz o seu pedido, e a tradição se mantém ano após ano”.

G1

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *