Universitária denuncia racismo após ser acusada de roubo em loja no Rio

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Vanessa Coelho e uma amiga, ambas negras, deixavam a Unistar Presentes, localizada na Rua da Alfândega, quando uma funcionária disse a ela para ‘devolver a carteira que estava na bolsa’. ‘Só ocorreu por se tratar de duas mulheres negras’, acusa a estudante

Uma universitária denuncia ter sofrido preconceito racial dentro de uma loja na Saara, no Centro do Rio, nesta terça-feira (14), ao ser acusada de roubo. Vanessa Coelho e uma amiga, ambas negras, deixavam a Unistar Presentes, localizada na Rua da Alfândega, quando uma funcionária disse a ela para “devolver a carteira que estava na bolsa”.

Vanessa contou ao DIA que a amiga já tinha estado no local e a chamou para conhecer a loja , que vende bolsas, bijuterias e outros artigos para presente. Como não gostaram de nada, decidiram ir embora. Ela carregava uma sacola de verduras, onde a funcionária acusou que a estudante de direito tinha escondido uma carteira que era vendida no local.

“Saindo da loja, a funcionária que fica na porta veio e falou bem no meu ouvido, baixinho: ‘Devolve a carteira que está na sua bolsa’. Pedi para ela repetir, e ela não repetiu”, contou.

A estudante disse que depois foi chamada pela mesma funcionária, que mudou a versão e falou que não dito nada daquilo, mas no fim reconheceu o erro. “Ela veio contando que não tinha falado aquilo, que apenas estava indicando que a carteira era R$ 15. No fim assumiu que tinha errado, que tinha se confundido e pediu desculpas, que poderia assumir o que falou, mas que não envolvesse a loja”, disse Vanessa.

Indignada com o episódio, a estudante fez um desabafo nas redes sociais sobre a “confusão”, como a funcionária nomeou o episódio. “Confusa se eu tinha furtado ou não. Não vamos deixar que nos confundam mais com MARGINAIS. Já fomos confundidos, escravizados, humilhados, acoados, subjugados por 300 anos oficialmente”, escreveu. A postagem teve vários compartilhamentos e comentários em apoio a Vanessa.

A vítima disse que a gerente da loja tentou abafar a história e pediu desculpas, justificando que “tentaria um treinamento melhor” para os funcionários. Para Vanessa, o caso é nitidamente a materialização do preconceito, pois só ocorreu por se tratar de duas mulheres negras.

“O racismo é materializado ali. Ela não perguntou, ela simplesmente pediu para tirar da minha bolsa algo que não tinha”, disse, ressaltando que casos como esses acontecem diariamente com negros e causa traumas. “É difícil mensurar a dor, a indignação, a impotência diante dessa marginalização. Foi um choque muito grande, não consegui dormir direito”, falou.

Após a abordagem racista relatada por Vanessa, ela ligou para o 190 da Polícia Militar para pedir ajuda, mas a resposta por telefone era de que a corporação não atendia “esse tipo de conflito”, sendo orientada a procurar uma delegacia.

A Secretaria da Polícia Militar disse que não consta descrição de injúria racial feito pela vítima à Central do 190. “Foi relatado um desentendimento entre uma cliente e um funcionário da loja, sendo a parte reclamante orientada a ingressar com uma ação cível”, diz a nota. Questionada, a corporação não respondeu porque não atendeu o chamado, independente do tipo de crime relatado pela vítima.

Vanessa esteve na noite desta quarta-feira na 5ª DP (Mem de Sá), mas houve recusa de tipificar o crime como injúria racial, sendo registrado como calúnia. Antes, a estudante procurou a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), mas não conseguiu denunciar o que acredita ser um crime racial, sendo orientada a procurar a distrital do bairro. “O sistema continua falho para questões raciais”, lamentou.

O crime de racismo é previsto na Lei n.º 7.716, de 1989, e ocorre quando as ofensas atingem toda uma raça, etnia, religião ou origem. A lei prevê uma série de situações, fazendo a pena variar, além de ser inafiançável e imprescritível.

Já o crime de injúria racial está previsto no artigo 140, parágrafo 3º do Código Penal, e acontece quando o autor ofende a dignidade ou o decoro de um indivíduo, utilizando elementos de raça, cor, etnia, religião, condições de pessoas idosas e portadores de deficiência. A pena prevista é de um a três anos e multa.

A reportagem entrou em contato com a loja, que pertence a cidadãos chineses. Uma gerente da Unistar Presentes, identificada como Julia Ji, disse que a funcionária que abordou Vanessa estava em período de experiência e trabalhava no local há cerca de 10 dias. Ela foi dispensada após o episódio, segundo a administradora do estabelecimento.

Ji lamentou o episódio e disse que orienta os funcionários a não fazer esse tipo de abordagem sem ter “100% de certeza”. “Tem que primeiro olhar a câmera, checar bem para ter certeza e depois falar com a pessoa”, explicou. Via IG

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